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Febre Maculosa

Vania de Fátima Plaza Nunes

médica-veterinária sanitarista
CRMV-SP-4119
Novembro de 2005

Muito se têm falado nos últimos meses sobre o risco de uma doença de nome estranho, sobre o risco que os carrapatos e capivaras representam, mas de fato onde esta o risco e como podemos evitar nos expormos a ele? Bem, antes de mais nada, é preciso saber que a Febre Maculosa não é uma doença nova, e sim uma doença reemergente, uma zoonose que já vitimou muitas pessoas no passado, no final do século XIX e inicio do XX, e que sua transmissão é feita pelo carrapato. Não qualquer carrapato, o que se sabe é que o carrapato transmissor da febre maculosa é de uma espécie especifica que parasita cavalos e eventualmente as capivaras o Amblyomma cajenense.

É bom entender, que exitem muitas centenas de carrapatos diferentes, e cada um tem um hospedeiro de preferência, no caso do A. cajenense é o cavalo, mas na ausência dele este pequeno ácaro pode parasitar outros animais entre eles as capivaras. Também é importante saber que carrapatos são encontrados no mundo todo. Mas porque as capivaras ? Primeiro porque elas podem viver atualmente em locais onde existem eqüinos próximos, e nós cada vez mais estamos restringindo áreas verdes onde estes grandes roedores, as capivaras podem viver tranquilamente.

Quando dizemos que estamos cada vez mais acabando com os locais comuns de residência das capivaras, o maior roedor do planeta, também estamos acabando com seu alimento e elas por seu instinto de sobrevivência saem a procura de áreas para alimentação, descanso e usam os cursos dágua como rios, riachos e lagos para se deslocar, uma vez que seu hábito de vida diário é passar a maior parte do dia submersa na água. O carrapato que parasita o cavalo necessita para completar seu ciclo de vida de 3 hospedeiros diferentes para poder sofrer as modificações necessárias para completar seu ciclo biológico de ovo larvado á adulto.

Cada uma destas formas só pode ocorrer na natureza, no ambiente onde vivem os animais e os carrapatos. Por isso o carrapato-mãe que originalmente estava por exemplo, em um cavalo, cai no chão coloca seus ovos, destes saem as larvas-micuim, que rapidamente procuram um hospedeiro, em geral na ponta de uma folha de grama, arbusto ou outro vegetal existente no local, e assim pode encontrar por exemplo uma capivara se esta viver num ambiente comum com outros animais. Depois de algum tempo este micuim volta ao solo e se transforma em uma ninfa-vermelhinho, que parasita um outro animal por alguns dias e novamente vai ao solo para se transformar em um adulto- estrela . Cada fêmea coloca cerca de 6.000 ovos no ambiente, morrendo a seguir.

O ciclo de vida completo destes pequenos seres vivos pode levar de 6 meses a dois anos para se completar dependendo das condições ambientais e da disponibilidade de hospedeiros. O parasitismo destes carrapatos significa sugar sangue dos hospedeiros, e é neste momento, que os carrapatos podem se contaminar com o agente da febre maculosa. Até hoje não se sabe quem mantém este agente na natureza, se a capivara ou outro animal. A única coisa que se sabe é que é através da picada do carrapato Amblyoma que ocorre a transmissão da doença para o homem.

Aqui começa a orientação do que podemos fazer para evitar corrermos risco. Devemos evitar permanecer, sentar e principalmente deitar em áreas sabidamente infestadas por carrapatos. Se tivermos necessidade de permanecer por algum tempo em áreas infestadas por carrapatos, devemos usar roupas claras, calças e camisas de manga comprida, usar botas de borracha claras e fixa-las junto a calça com fita adesiva larga, vedando bem para evitar que os carrapatos entrem entre a bota e a calça. A cada 2 horas devemos nos retirar para áreas onde pode se verificar se algum carrapato esta no nosso corpo e em caso positivo retira-lo com cuidado, evitando espreme-lo. Se ele estiver fixo a pele o ideal é tracioná-lo para traz, ao mesmo tempo que o torce como se estivéssemos retirando um parafuso.

Em animais como cavalos, cães e outros animais que vivem em áreas infestadas por carrapatos, promover controle com carrapaticidas específicos e adequados a espécie animal e ambiente de acordo com as recomendações de um médico-veterinário. Não esquecer que cada espécie tem um carrapato específico e as formas de controle são diferentes para cada espécie de carrapato e de animal. Evitar freqüentar áreas onde as capivaras gostam de deitar para descansar como margem de lagos, rios e represas.

Caso você seja picado por um ou alguns carrapatos e após alguns dias apresente febre deve imediatamente procurar o médico, narrando o caso para que se necessário ele rapidamente institua o tratamento necessário. A picada do carrapato sempre causa uma irritação local que pode ter intensidade variada de individuo para individuo. Em locais infestados manter a vegetação bem baixa facilitando que os raios solares atinjam os carrapatos no solo, matando-os.

É importante saber que as pessoas que vieram á óbito em áreas endêmicas (que frequentemente tem casos) de febre maculosa ou que apenas recentemente apresentaram casos, ou demoraram a procurar assistência médica ou não receberam atendimento correto. Menos de 5% das pessoas quando são tratadas corretamente morrem de febre maculosa. Já os casos de tratamento tardio levam á óbito mais de 70% dos doentes. Infelizmente as medidas disponíveis de controle de carrapatos para capivaras ainda são poucas e apenas experimentais.

O manejo destes animais requer licença ambiental junto ao IBAMA e só pode ser feita por técnicos especializados. Talvez o risco desta como outras doenças que vem ocorrendo nos últimos tempos, nos obrigue a repensar nossa forma de viver, de restringir a vida de outros seres vivos, de cada vez mais criarmos tecnologias que mais rapidamente retiram áreas verdes, e colocam grandes empreendimentos em seu lugar não levando em conta riscos que praticamente não são avaliados nos estudos ambientais.

Tudo é cíclico levando cada ação a uma reação, que cada vez pode ser mais rápida e mais rapidamente nos colocar diante de desafios para os quais não temos soluções. Por isso por enquanto prevenir o risco é o a melhor solução.

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Conteúdo desenvolvido por Márcia Graminhani
Espaço gentilmente cedido por Cebinet